Meu marido, José
Meu marido, José
O Brasil tornou-se um verdadeiro caos, após a promessa de melhora, houve o golpe, tiraram o presidente alegando que ele era um homem de princípios malignos, não entendo de política, mas desde que o golpe foi instaurado minha vida nunca mais foi a mesma. Meu marido, José era um membro importante do seu sindicato, após dois meses do golpe ele disse que tinha uma missão, talvez a mais importante de sua vida, largou-me aqui, por uma causa maior, prometeu a mim e a nossa pequena filha, que voltaria e que a vida seria ainda melhor do que antes. Hoje, vejo apenas promessas sem sentidos, vivo frustrada, já tentei de tudo, fui a policia, quartel e nada, meu marido está desapareci… não, meu marido está morto, não digo isso a minha filha, porque crianças devem ter esperança, e ela deve ter-lá por nós duas. Passou-se um mês, eu ainda procurava, não por mim, mas sim por minha pequena, que não podia viver sem seu amado pai, eu colei cartazes, fui onde era o sindicato, porém lá tornou-se uma fábrica, com pessoas na miséria trabalhando para pelo menos manterem seus corpos. Tudo piorou, principalmente depois de cinco meses, agora, os guardas não deixam ninguém sair às ruas após as 19:00 horas, o filho da vizinha foi a uma festa e nunca mais voltou, coitada, eu a entendo, imagina perder um filho! Meu marido, provavelmente nunca mais o verei, apenas talvez se o destino permitir no pós-vida. Passaram-se dois anos, a ditadura, estava a mil, destruindo casas, alegando que elas eram contra a dita “Revolução”. Eu, bem eu era uma dessas pessoas, depois de me esforçar ao máximo para encontrar meu marido, eu conheci uma pessoa interessante, seu colega de sindicato, seu nome não diz respeito a essa carta, mas ele me auxiliou muito a entender o que havia acontecido, meu marido foi capturado após uma tentativa de revolução e morto. Quando ele me contou essa história, achei que já havia entendido, mas mesmo assim meu coração se apertou, minha vista ficou embaçada e minha cabeça passou a doer, fiquei dias assim, não disse nada a minha filha, mas secei a procura, de que adianta procurar um homem morto, a dor não passava, eu bebia, trabalhava e até cheguei a tentar me matar, não consegui, não aguentei a ideia de ser fraca e deixar minha filha sozinha nesse mundo terrivel. Agora, vivo numa constante tristeza e medo, medo que minha filha adolecente, siga os passos do pai que nem ao menos conheceu direito, medo que eu não a veja amanhã, porque os militares pegaram jovens bebendo até tarde ou até que ela não aguente esse país e como eu tente tirar sua própria vida. Essa é minha vida, deixo aqui minhas angústias num guardanapo velho, para que no meu encontro com José, eu não precise dizer o quanto sofremos. E para você que leu isso, nunca deixe com que tirem sua liberdade.
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