Nascido da terra
Esse é meu primeira fabula, gostaria de feefbacks, lembrando que ainda não foi revisada. Se achar algum erro me avise.
Nascido da terra
Capítulo 1 - Nascimento
Quando sinto pela primeira vez o sangue fluir em meu corpo, meus olhos também se abrem, nada vejo e mal respiro, algo segura meu corpo a terra quente, não sinto frio, apenas paz. Levanto aquilo que me faz pensar e entendo, estou enterrado, me forço a sair e quando saiu uma luz inebriante cega minha visão e vejo algo lindo, aquela que de mim se fez mãe, minhas belas irmãs me dão boas vindas calorosas, batendo suas folhas junto ao céu, me sinto em festa, talvez nascer tenha sido algo bom. Outros vem prestigiar meu nascimento, uns saem do chão assim como eu, outros caminham sobre ele e também há os que sobrevoam cantando alegremente, tem de vários tipos, tamanhos e formas, devem ser meus irmãos postiços. Após a festa, a vida volta ao normal, me criei aqui, começo entender meu corpo, não me pareço com nenhum dos meus irmãos, eles dizem ser normal, que não importa tamanho, forma ou aparência, nossa mãe nos ama, ela não deixa faltar nada, meus irmãos mais calados me dão os frutos de sua cabeça, os que sobrevoam fizeram pra mim uma cobertura de galhos e folhas, disseram-me que era para eu não andar nu, que todos se cobrem para proteger-se do gélido sopro que o céu às vezes dá, coitado, está quase sempre doente, os meus irmãos que são altos e sempre estão juntos me dão abrigo, mas nenhum deles me deixa sair de perto. Aquela que sempre mente, até sua aparência e mentirosa, sempre prega peças nos outros fingindo ser um cipó, a irmã serpente diz que longe há filhos da terra que não me merecem, confio em meus irmãos e não tem o porque sair de onde nasci, mas minha curiosidade a cada dia cresce mais.
Hoje conheci mais um irmão, ele se parece mais comigo, porém é menor e coberto por pelos, me ensina a pendurar nos galhos dos meus outros irmãos, diz que um dia vai me ser útil, mas sempre que vou ao chão ele ri, sua risada é engraçada, faz-me esquecer da dor. Meus irmãos estão sempre discutindo sobre mim, porque uns acham que eu devo estar sempre em segurança e outros dizem que devem ensina-me a caçar e sobreviver, já eu, quero conhecer de tudo! Tenho uma curiosidade imensa, meu irmão colorido fica voando sobre minha cabeça e falando e falando – ele não para de falar – sobre o que já viu, ele descreve um grande lago sem fim com vários irmãos de formas diferentes e com vidas diferentes, eu torço para um dia conhecê-los. Toda noite sonho em conhecer coisas novas, gosto muito daqui, mas as vezes me sinto deslocado, não falo muito sobre isso com meus irmãos, às vezes confesso meus sonhos com minha irmã pintada, ela é bem preguiçosa, porém muito muito sábia, ela entende minhas dores e diz que todos ali tem seu lugar, sua função, há aqueles que semeiam a terra, tem aqueles que nos escondem da luz, aqueles que ajudam as raízes se formarem e até aqueles que nos alegram com seu cantar, todos são diferentes da sua forma e ajudam a nossa mãe a prosperar. Entendo a importância, mas ainda não me vejo útil aqui, apenas como, durmo e brinco.
Já estou vivo a muitas luas, nessa noite decidi fugir, gosto muito daqui, mas decidi que preciso viver por mim, descobri pra que vim ao mundo e trilhar meu próprio ser, o grande problema é meus irmãos que dormem ao sol e acordam sobre a luz da lua. Fui de ponta do pé, tentando não pisar sobre as folhas secas e caídas dos meus irmãos, quando chego perto da saída vejo luzes brilhantes, mas antes de conseguir sair sou pego, meu irmão mais sábio vira apenas sua cabeça pa1ra minha direção e me aconselha a procurar um amigo dele, diz que seu amigo de pernas engraçadas, gentil e bem fiel, eu com vergonha entendo o por que de seu pedido, ele sabe que não pode parar minha curiosidade, porém quer me ver seguro, agradeço e sigo o meu caminho rumo aonde estão aqueles que não me merecem.
Enquanto caminho pela terra úmida, sinto que estou sendo observado, movo-me mais rápido, de nada adianta, uma sombra grande curva me segue a distância, ande um pouco mais e decido em um ato de coragem parar. A sombra se mostra um ser que nunca havia visto, uma grande serpente que é seguida por uma luz quente e vermelha, ela para em minha frente:
—Oh ser vindo de minha mãe, como chegou até aqui irmão.
Fico atônito, penso logo que fui pego, mas no momento certo um ser de pelagem vermelha e de pernas longas e nariz fino diz:
—Protetora, perdoe, nós perdemos, meu pequeno irmão é ligeiro, acabou que por curiosidade de criança chegou até suas terras!
Minha curiosidade se infla ainda mais, porém lembro do dizer de meu irmão mais sábio, logo me tranquilizo e sigo o ser de pelagem vermelha.
A grande serpente entende e segue seu caminho, aquele que me protegeu me faz um questionamento que nunca direcionaram a mim, como me chamo? Penso e com um rosto confuso viro para aquilo que me faz pensar.
— Não deram-lhe um nome?
Faço um gesto de dúvida ainda maior.
— Nome é aquilo que nós identifica, pode significar quem somos, a que grupo pertencemos e de onde viemos, o meu é Guaraná, vim do norte desta grande terra. Posso lhe conceder um?
Aceno afirmando.
— Então vamos ver, Ibity, aquele que nasce da terra, gostou?
— Sim!
Me espanto! Não sabia falar, aparentemente quando se tem um nome ganhasse o dom da língua!
Agora falo e sou gente, O Guaraná está me acompanhando vive comendo, come de tudo, frutas, plantas e até carne –Não gosta muito de carne, mas as vezes é só o que resta– por isso minha comida acabou, por isso subimos uma montanha bem bem alta e lá encontrei uma fruta diferente, ela tem nome:
– Não me comam!! Sou venenosa, sou tóxica!!
Não sabia do que ela estava falando, mas Guaraná parou-me e disse que se comesse ela eu morreria, então eu questionei:
– O que é morreria? Venenosa, tóxica?
Os dois me encararam com rosto de espanto, Guaraná confuso me explicou:
– Morrer é quando nós voltamos a nossa mãe, quando alimentamos nossos irmãos e paramos de falar, mas ainda mantemos o nome.
– E como se morre? Pergunto confuso.
– Comendo plantas como ela, o veneno deixa doente, faz as patas inchadas e o focinho crescer. Cuidado! Nem todas tem nome.
A planta se apresenta:
– Isso não me coma, se não vão desviver!! Inclusive, me chamo Nariza Blisar.
Eu me pergunto:
– Por que tens dois nomes? É melhor que eu?
Guaraná querendo sair de perto da planta me puxa e explica:
– Sim, existem mais de um nome e eles nos dizem a que família o indivíduo pertence. Eu me chamo Guaraná Licantros.
– Como faço pra ter dois nomes?
Já longe da flor, ele me diz:
– Não sei, meu pai me deu esse nome. Diz ele com a voz trêmula. Me pergunto quais eram os nomes dos meus irmãos.
Conforme andamos pela floresta vou conhecendo novos irmãos, encontrei-me com um irmão alto, magro e com vários braços. Disse que se chama Araucá, nos deu um pouco do seu fruto, Guaraná disse que o fruto tem vários nomes: Curi, pinha e pinhão, ainda me confunde como funciona os nomes:
– Como alguém pode ter dois nomes ou até ter vários nomes?
Guaraná disse:
–Os já nomeados dão um nome às suas crias, o primeiro é único, o segundo vem da família e os outros vem pela vivência, um apelido ou até um nome dado por outros.
Araucá completou:
– Eu só tenho um nome dado por nossa mãe, os outros são dados pelos homens.
Confuso pergunto:
– Como os homens nos nomeiam? Como são os homens?
Guaraná responde com um tom de medo:
– Os homens são macacos pelados que acham que são gente, negam que vieram da terra e diz que não somos inteligentes. São todos maus, não se envolva com eles!
Eu sou um macaco sem pelos, será que sou homem? Será que sou gente? Sou mau? Nasci da terra, amo os meus, por que os iguais são ruins? Pergunto:
– Eu sou homem?
Araucá responde com um tom carinhoso:
–Não irmão, você é o precioso fruto de nossa mãe, se assemelha com homem, mas é bicho, é gente. Você é o que trará a paz para as raças!
Não me ligo muito em suas falas, não as entendo bem, mas fico feliz em ser gente. Agora sem fome e mais entendido, eu e Guaraná seguimos nosso caminho.
Chegamos em um lago com vários animais se refrescando, aproveito para me refrescar também, quando chego com o que segura meus olhos perto da água pela primeira vez vejo eu, sou algo, não sei descrever, não sou homem, bicho ou pareço com algum dos meus irmãos, pergunto ao Guaraná:
– O que é isso entre meus olhos e minha boca? Como se chama?
Guaraná responde incrédulo:
– Rosto Ibity! Seu rosto, aquilo que assim como teu nome te identifica, como sabe diferenciar seus irmãos?
Eu maravilhado olhando a mim mesmo:
– Eu sabia da existência, mas nunca havia visto, sou estranhamente lindo, sou árvore, homem e bicho. Sou tudo um pouco!
Guaraná diz de forma orgulhosa:
– Nossa mãe lhe fez assim, perfeito. Já vi muitos, animais, flores, homens e protetores, mas nenhum como você.
Com um sentimento que nunca senti em mim mesmo, pareço feliz por mim, por ser o que sou. Orgulho, deve se chamar assim! Com o chegar na lua, sinto algo estranho em meus olhos, parece que mesmo com o escuro da noite, minha visão se acostumou e agora vejo tudo muito bem, como se a luz do sol estivesse na brilhante lua.
Entendo mais do mundo, sei mais sobre mim, mas ainda não encontrei ninguém como eu.
Capítulo 2 - As Rainhas
Ao chegar perto do fim da floresta, eu e Guaraná paramos para descansarmos os ossos, quando sentamos ao chão, ele diz:
— Ibity, não! Com um rosto preocupado.
— Qual o motivo do espanto? Pergunto parado no meio da ação.
— Há irmãos aonde você vai se sentar.
Irmãos? Me pergunto confuso, olho para a terra embaixo de mim e vejo pontinhos negros andando em fila. pergunto:
— Quem são vocês? pergunto chegando meu rosto mais perto.
— Oh, nosso salvador! Comemora um dos pequenos.
— Vamos dizer a rainha! Fala outro.
Ainda confuso Guaraná me explica:
— Essas são formigas, os operários da natureza, estão sempre a trabalhar, fazem de tudo e ajudam a todos. Diz ele com a boca ao chão comendo algumas dessas formigas. Eu pergunto:
— Então, elas trabalham com o que? Uma formiga me responde:
— Nos ajudamos a mãe terra, mas ultimamente não estamos ajudando muito.
— Por que? Algo está errado? Pergunta Guaraná com um rosto confuso.
— Sim, nossa rainha vem passando por dificuldades na concepção de novas operárias.
— Tem algo que possamos fazer? Com preocupação no rosto questiono.
— Na verdade, há sim algo que nosso salvador pode fazer!
— Meu nome é Ibity!
— Perdão irmão, mas há sim uma forma de você nos ajudar!
— Como?
— Há uma outra rainha no topo daquela árvore de raízes fortes e grandes!
— Ah! A irmã Angelim, muito sabia! Diz Guaraná com entusiasmo.
— Guaraná, você conhece aquela irmã grande?
— Sim criança, nosso irmão Guaraná vem sempre me visitar!
— Então, qual rainha vive em você?
— Oh sim, a rainha Zuum! Ela está no topo da minha cabeleira! Ibity, pode subir e conversar com ela!
— Muito obrigado irmã Angelim!
Ibity começou a subir as raízes robustas de Angelim, conforme sobe, o céu vai ficando mais e mais perto, até que quando chega no primeiro galho de sua irmã vê um casal de pássaros fazendo seu ninho, Ibity os comprimenta, mas para não perder o foco continua subindo. Já no topo, ele se depara com nuvens sorrindo e o rodeando, nunca um macaco pelado havia chego tão perto dessas jovens nuvens! Elas curiosas vão o investigando Ibity sem graça diz:
— Parem por favor, eu preciso conhecer a rainha! Logo as nuvens se assustam e saem de perto dele, Ibity desconfiado bate a porta de uma enorme colméia.
— Quem ousa chegar até a rainha? Pergunta um pequeno ser amarelo e preto, com uma lança em mãos.
— Eu sou Ibity, o filho gente da terra! Posso conhecer sua majestade?
Quando o pequeno soldado ia se pronunciar ele é interrompido:
— Olá irmão! Sai da colmeia uma enorme rainha, com sua coroa amarela reluzindo a luz da estrela que brilha alto no céu.
— Oi rainha, queria saber se vossa majestade pode me ajudar? Ibity pergunta com respeito.
— Com certeza salvador! O que precisa?
— As irmãs formigas me pediram para dizer que a rainha está com dificuldades de conceber novos operários. Digo com um rosto preocupado e esperançoso.
— Oh sim! O que ela precisa é de um pouco de mel! Diz ela entrando para o seu castelo e saindo um pouco depois com um pouco de um líquido amarelo transparente, imagino que seja isso que ela chamou de mel!
— De isso a ela e diga que eu agradeço por ela ter me ajudado com a conquista dos céus! Ela me entrega o mel e volta ao seu castelo, antes mesmo de eu conseguir agradecer!
Volto com cuidado pelo tronco de minha irmã Angelim, até que encontro novamente com as nuvens:
— Então você voltou vivo da conversa com a rainha! Diz uma delas preocupada.
— Sim, foi divertido conhecê-la!
— Como assim!? Ela é a grande rainha dos céus, impetuosa e raivosa também! Outra nuvem a corrige:
— Não fale desse jeito, vai que uma de suas escuta! Ela comenta com medo.
— Eu a achei tranquila, me recebeu bem e me ajudou! Digo com entusiasmo!
— Quem é você? Pergunta incrédula uma das nuvens.
— Eu sou Ibity, o bicho gente nascido da terra! Digo com um sentimento de orgulho.
— Então bicho gente, você é sortudo, a rainha gostou de você! Diz elas indo embora.
Depois da conversa Ibity desce da árvore e entrega o mel a formiga.
— Obrigado salvador! Isso era o que a rainha precisava! Volta a pequena formiga para sua casa.
— Parabéns Ibity, parece que você ajudou elas! Agora vamos continuar, tchau tchau irmã! Diz Guaraná feliz.
— Tchau irmãos! Angelim acena com sua enorme cabeleira!
Ibity e Guaraná seguem o seu caminho.
Capítulo 3 - O rio de lágrimas
Um rio enorme em meio a floresta atrapalha o caminho de nosso salvador, quando Ibity coloca suas patas na água ela a estranha, salobra! Como um rio tem uma água tão salgada? Guaraná o explica:
— Esse rio é feito de lágrimas.
Ainda mais confuso Ibity pergunta:
— Lágrimas como assim?!
— Nunca soube do por que, mas meus pais me contaram para que eu não bebesse dessas águas.
— Então, como será qu…
Quando Ibity ia se pergunta eu interrompo descendo do galho que estava e respondo:
— Essa água vem da Lua!
Ibity se assusta com a presença repentina de um irmão tão chamativo! Um pássaro laranja com um topete extravagante, mas estava tão curioso com a história do rio que nem questionou a chegada do pássaro. Guaraná pergunta:
— Como assim da Lua?
Ibity se impressiona, desde o dia que encontrara com Guaraná não o via com tamanha curiosidade! O pássaro o responde:
— A muito tempo atrás a Lua andava com a cabeça nas nuvens! Estava completamente apaixonada no grande Rei Sol, mas o rei por ser rei já tinha uma esposa, outra estrela longínqua, a Lua ficou arrasada, passou meses sem aparecer no céu, as estrelas sentiam sua falta e nossa mãe também, acolhedora como um vento frio num dia quente, nossa mãe decidiu ajudar a triste Lua, disse a ela: “Oh minha amiga de longa data, chore em meu ombro que a fria e cruel tristeza vai se embora!” E assim a lua fez, chorou, chorou, por 100 noites, assim enchendo a trilha feita por uma enorme cobra. Essa é a explicação do por que essa água é tão salgada!
Ibity com lágrimas nos olhos olha para o céu e sente-se triste pela pobre lua. Dizendo assim para o sábio pássaro:
— Como pode haver tanta tristeza? Como se sofre tanto por amar?
O pássaro responde:
— O amor não correspondido é triste como a morte, entretanto o amor verdadeiro é tão bonito quanto uma rosa a brotar!
— Quero viver um amor também! Um amor que dói de estar longe, um que se chora por não o tê-lo!
Guaraná impressionado com a inocência de seu irmão diz:
— Não é fácil encontrar esse amor, uns vivem suas vidas sem nunca tê-los encontrado!
O pássaro concorda:
— Sim! O amor é raro e precioso, por isso a Lua chorou tanto por não ser correspondida.
Ibity se lembra:
— Senhor pássaro, como se chama?
— Eu me chamo Ropiserra Locola! Vivo perto desse rio desde o nascimento do nosso salvador!
— Você me conhece? Ibity pergunta confuso.
Guaraná responde:
— Ibity, todos na floresta o conhecem! Você é o precioso fruto de nossa mãe!
— Então senhor Ropiserra, como passamos pelo rio salgado? Ibity pergunta.
— Há uma ponte feita pelos homens a algumas árvores daqui.
— Obrigado senhor!
Ibity e Guaraná seguem até a ponte, mas ao chegar lá se deparam com ela caída.
Capítulo 4 - O milagre de João
A ponte feita pelos homens estava caída, por isso decidimos fazer nosso ninho ali mesmo, pegamos alguns galhos e folhas grandes para montar um abrigo seguro da fria e escura noite, nem o luar consegue iluminar a densa mata que nos rodeia, quando todos os bichos estão dormindo e os monstros fazendo feira, eu acordo com um estranho barulho que vinha dos escombros da antiga ponte, saio para averiguar e me espanto. Um ser sem ser, sem pele, apenas luz, sem sombra, apenas ele, quando começo a transparecer que estou com medo o mesmo se pronúncia:
— Calma, criança! Sou apenas um vagante desse estanho e extenso mundo.
Ainda com medo ele decide se apresentar para acalmar minha angústia.
—- Sou João I, ou melhor sou o grandioso rei de uma terra longínqua chamada de Congo.
Mais calmo, eu pergunto:
— Todos os desta terra são como você? Como chegou tão longe apenas flutuando?
—- Não pequeno, eu estou morto, deixei de ter carne, sou apenas alma, os homens de lá são mais semelhantes a você! Apesar de que você é especial, ouvi dos animais que você é um filho da terra, já ouvi sobre isso. E respondendo sua pergunta, não vim até aqui por mim, vim como mão de obra, sem alma, nem dignidade.
Diz João I lamentando-se. Ibity sem compreender completamente o que o homem fala pergunta:
—- Como assim? Por que o trouxeram à força?
— Eu fui trago por homens ruins, que não tinham amor a vida dos outros, vim como escravo, tiraram meu nome, família e amigos.
— Que coisa horrível! Os homens são tão ruins assim? Por que fizeram isso?
— Dinheiro criança, isso é o que move o mundo triste e sombrio dos homens, nem todos são de todo mal, mas a cobiça os tira a bondade.
— Então existem homens bons? E o que é cobiça?
— Cobiça é um desejo ardente de possuir, o mal do homem, o querer.
— Querer é ruim? Por que eu quero muitas coisas, isso quer dizer que também sou ruim?
João solta um suspiro leve de felicidade, ver tamanha inocência aquece o coração.
— Querer, desejar não é ruim, ruim é fazer mal ao outro para conseguir o que quer. E sim existem homens bons, mulheres fortes e crianças de coração puro.
Ibity ainda tem muitas perguntas, porém aquela luz vai sumindo na escuta noite. Ibity sente sono, vai até seu abrigo e dorme, quando Guaraná acorda, logo grita Ibity.
— Ibity, Ibity! Olha que milagre! Os destroços da ponte criaram um caminho!
Ibity acorda e vai logo ver o por que Guaraná se espantara e logo fica alegre, olha para o céu e lembra de João I como um sonho passado, um milagre, que agora descansa.
Os dois passam com facilidade pelas pedras que milagrosamente formam um caminho seguro para se seguir. Chegando ao outro lado eles vêem uma forte fera os impedindo de passar.
Capítulo 5 - Abaporu
A fera tinha pele clara, grandes pés, imensos braços e uma cabeça tão pequena quanto um grão de arroz ligado ao tronco de uma árvore forte. Logo quando o vê Guaraná recua e range os dentes emitindo barulhos, eu o entendo e dou passos para trás. A fera se pronúncia:
— O cão fofo e macaco nu, vocês não podem passar, sair da floresta não!
Diz a fera em tom de ameaça. Ibity logo se sente contrariado e diz:
— Quem é tu, como pode dizer-me o que devo fazer!
O monstro surpreso responde inflando o peito.
— Sou Abaporu, a fera que come gente! Vocês não passaram por mim!
Ao dizer isso os pássaros saem voando das cabeças das árvores, o barulho alto de sua voz faz o vento tremer e mudar de direção. Ibiti começa a falar, mas é interrompido por um movimento de Abaporu, a fera bate sua grande palma ao chão e faz com que todas as minhocas ali presente subirem à superfície e logo se escondem com medo. Guaraná se põe na frente da fera, porém é derrubado com apenas um movimento de seus grandes pés, batendo em uma árvore e desmaiando. Ibity grita em desespero:
— Guaraná! Como pode machucar um amigo meu!
Ibity sem pensar vai em direção a fera que se levanta e o assusta com seu tamanho monstruoso e sua boca que até então estava escondida pelas pernas da fera, porém ele não se acanha, mantém-se firme, quando o pé de Abaporu ia o atingir ele o segura, com uma força que nunca havia sentido, a fera põe ainda mais força e Ibity também fica cada vez mais forte, quando está prestes a ceder seus pés se enraízam e ele empurra a fera, o fazendo cair ao chão e desmaiar. Ibity cansado e confuso, sente algo que nunca sentiu, uma força emanando de sua alma, quando olha à sua volta vários irmãos o reverenciado, eles sentem a força da terra e todos gritam:
— Nosso Salvador! O bicho-gente que derrotou Abaporu!
A força logo vai se acabando e as pálpebras de Ibity começam a se colar e seu corpo vai ao chão.
Capítulo 6 - Bram
Abro meus olhos e vejo Guaraná, ele me pede para contar o que houve, conto tudo que passou, recomponho-me e seguimos caminho, passando das árvores vemos uma grande floresta, sem árvores nem bichos. Um lugar de gente, gente que não é bicho. Desci correndo o monte e logo cheguei naquilo que Guaraná chamou de cidade. Ando vislumbrado por um mundo completamente diferente, as grandes montanhas lineares feitas quase que perfeitamente alinhadas, os macacos que a mim direcionam um olhar curioso, os grandes animais de ferro que levam a gente, confuso olho para Guaraná e não o acho, até que ouço sua voz familiar.
— Ibity, aqui! Diz o lobo, agora em forma de gente.
— Incrível! Como fez isso? Me pergunto maravilhado!
— Não sei direito, mas a maior parte da minha família consegue.
— Guaraná, para onde devemos i… Sou interrompido.
— Vocês não são gente, então quem são? Diz um ser pequeno, gordo e de lindas cores brilhantes! Ibity diz.
— Olha! Quantas cores você tem! Quem é você? Digo encantado com o novo amigo.
— Esse Ibity, é um pombo, ele vive entre os homens.
— Isso mesmo, eu sou um pombo, porém podem me chamar de Bram!
— Que nome diferente! Os nomes da cidade são assim? Diz Ibity.
— Na verdade não, eu vim de uma terra distante, um lugar frio, lá pro nordeste do globo. Diz Bram orgulhosamente.
— Então Bram, pode nos mostrar a cidade? Diz Guaraná olhando para ele. Bram se assusta e diz.
— Como um homem fala comigo?! Diz ele correndo para a atrás de Ibity.
— Só agora percebeu? Esse é o Guaraná, um lobo- guará, meu irmão, é verdade, esqueci de me apresentar, eu sou Ibity, o filho gente da terra! Bram se assusta e olha nos meus olhos.
— Filho gente da terra? Então os relatos são verdadeiros! Fala Bram, pondo suas asas perto da boca.
— Relatos? Questiona Guaraná.
— Sim, entre os animais da cidade está rolando várias histórias sobre um novo irmão, é as notícias correm como ratos pelas cidade, literalmente ha ha ha! Diz Bram rindo alto.
— Então todos já sabem sobre mim! Que legal, penso eu.
— Já vocês são meus queridos irmãos, vou levá-los até o prefeito, ele ficará feliz em vê-lo Ibity!
Então Bram começa a nos apresentar a cidade.
Capítulo 7 - As mazelas da cidade
Nós vamos andando pela cidade, os prédios, foi assim que Bram os chamou, nunca acabavam, as pessoas também não, não há árvores, nem bichos, fomos andando e muitas coisas me chamaram atenção, eu pergunto.
— Bram, porque há homens na dormindo pelas ruas, eles não têm tocas? Digo com uma expressão confusa.
— As grandes cidades têm dessas coisas, aqui há muitas pessoas, todas elas vêm aqui procurando empregos, algumas simplesmente não conseguem. Diz Bram com um tom sentido.
— Empregos, o que é isso? Pergunto confuso.
— Emprego, é algo que eles fazem uns para os outros em troca de dinheiro, antes que pergunte, dinheiro serve para eles trocarem por comida e casa, ou melhor tocas.
Achei o conceito confuso, e não entendo o porquê de todos não conseguirem empregos. Nós continuamos andando, chegamos em uma parte onde os prédios acabaram, aqui as tocas, não, as casas tem um aspecto diferente, são mais simples, menores e mais juntas, seguimos em frente, subindo, aqui tudo muda, as pessoas e as ruas, porém aqui há animais, nenhum que eu conheça, no entanto Bram comprimenta todos, eles são magros, com partes do corpo sem pelos ou até com membros faltando, por isso pergunto a Bram.
— Por que os irmãos daqui estão com uma aparência tão ruim? Pergunto com um sentimento de afeição que não conhecia antes.
— Aqui onde nós estamos, chama-se favela, não há muito acesso a comida, casa ou cuidados, por isso os mais fracos vivem assim. Bram diz com um rosto triste, com um olhar cheio de raiva.
— Por qual motivo eles vivem assim? Por que não vão à floresta, lá eles seriam acolhidos! Digo indignado com a realidade diante dos meus olhos.
— Eles não podem. Diz Guaraná.
— Por que? Pergunto com a voz alta.
— Nós não somos daqui, os homens nos trouxeram para saciar seus caprichos, controlar pragas ou acompanhá-los, não sabemos viver sem eles. Diz Bram, com a mesma expressão de antes.
Entendo, por isso não digo nada, caminhamos em silêncio, até chegarmos em uma pequena tenda, feita com lixo e pedaços das casas que vimos pelo caminho, na frente dela há dois lobos, não como o Guaraná, eles são menores, com focinho mais grossos e de pelos com cor e formato diferente, um deles diz com raiva.
— Bram, sabe bem que humanos não são permitidos aqui! Diz ele pondo-se em nossa frente.
— Não são humanos, ele é da família Licantros, já o menino é o Bicho-gente, do qual os boatos vem falando. Diz Bram com autoridade.
— O salvador chegou! Diz o outro com alegria!
— Um Licantros, há muito não vejo um. — Diz ele saindo de nossa frente. — Entrem, sejam bem vindos. Fala com um sorriso no rosto e um tom animado.
Capítulo 8 - A toca do rei
O interior é impressionante, há vários animais, muitos divertindo-se, outros conversando, alguns comendo e até alguns se recuperando, conforme andamos mais e mais animais vemos, vários iguais a Bram, uns parecidos com onças, outros com os guardas, mas ainda sim, todos tinham suas diferenças, pareciam o mesmo animal, porém muito diferentes. Os olhares estavam quase todos direcionados a mim, alguns olhavam para Guaraná, mas ele já havia se destransformado, as expressões se resumiam a confusão, medo, e até um pouco de raiva, acho que os entendo, aparentemente os homens não são flor que se cheire, assim como a Nariza, eles os maltratam, acho por isso que quando vem alguém que aparenta ser homem não vão confiar em mim, porém os olhares aos poucos vão se acabando, porque os sussurros se intensificam e alguns transformam sua expressão de raiva em alegria ou esperança, até que chegamos até um grande ninho, e nele está uma grande ave, uma que nunca vi antes, um pássaro de olhos penetrantes, uma crista vermelha e um bico fino, por impulso pergunto.
— Nossa, nunca conheci ninguém como você! De que lugar você é? Pergunto com um olhar curioso.
— Bram, porque trouxe um homem até nossa toca sagrada? Não há lugar para não-filhos aqui! Diz ele com uma voz imponente e raivosa.
— Acalme-se irmão, esse é Ibity, ele é o filho mestiço, que tanto falam sobre. Diz Bram em um tom familiar se dirigindo para minha frente.
— Ibity? Isso é história de fazendeiro! Não existe ser que é gente e bicho, eu já vi de tudo, menos isso! Diz ele mantendo sua voz potente.
— De tudo?! Que incrível! Quantos animais e lugares você já conhece… Sou interrompido por Guaraná, ele sussurra pra mim.
—Ibity, deixe que Bram fale, esse é Caipira Frangues, mesmo na floresta seu nome é reconhecido, ele liderou uma guerra a muito tempo atrás contra os homens! Fico impressionado, mas confuso, não sei o que significa exatamente a palavra guerra.
— Acalme-se Frangues, sei que não crê, porém dê uma chance ao garoto, ele veio para ajudar. Diz Bram com um tom calmo.
— Por nossa amizade, eu deixarei que a criança fale. Diz Frangues ainda em um tom firme. — Garoto, quem é você? Pergunta ele.
— Eu? Eu sou Ibity, o bicho-gente, eu estou aqui com meu amigo Guaraná, estou em busca de conhecer o mundo e ajudar a todos! Digo ainda confuso, mas com confiança na voz.
Nós conversamos muito, Frangues ainda não acreditava, porém acolheu-me, deu de comer a mim e a Guaraná, nós passamos alguns dias lá, eles explicaram-me sobre toda a história dos homens e dos animais nas cidades, contaram-me que a muito tempo, os homens vivam em harmonia com os animais, porém com o tempo, eles passaram a ser gananciosos e com o tempo, esqueceram como comunicar-se com os bichos, começaram a escravizar animais, que pra eles eram úteis e a exterminar os que os “atrapalhavam”, depois passaram a escravizar a si mesmo, construíram cidades, destruíram a floresta e negaram sua origem e seus irmãos, até que um dia cansaram disso, antes achavam que eram incapazes contra eles, porém entenderam que juntos eram fortes, e passaram a atacar os homens, até conseguiram reivindicar novamente alguns lugares, mas os homens são muitos e muito fortes. Agora entendo a raiva dos animais contra os homens, eu sinto por eles, mas começo a questionar minha existência, porque não nasci bicho, nasci gente, porque chamam-me de salvador, quando fiz essa pergunta me explicaram, sou visto como salvador por muitos, porque uma vez uma árvore muito antiga, chamada Brasil, disse que “Quando o mundo dos homens não puder mais aguentar sozinho, nascerá uma criança que os guiará para a natureza novamente.”
Capítulo 9 - Não sou salvador
Nós fomos muito bem acolhidos aqui, decidimos ficar mais um tempo, Bram vai nos acompanhar a partir daqui. Esse tempo ali, fez-me perceber o quão incapaz sou, aqui, todos se ajudam, dividem a comida, mesmo tendo pouca, cuidam uns dos outros mesmo sem conseguir cuidarem de si, disseram para mim que eu vou salva-los, mas não sei se consigo, não sou capaz de tal grandiosidade, não posso tirar esse povo dessa situação, desconheço o mundo, de nada vivi ainda e muito menos senti como eles vivem de verdade! O tempo passa, tornamos ainda mais próximo dos animais daqui, tão próximos que numa certa noite, estava eu e um pequeno rato chamado João, conversando, João viveu muito, já viu de tudo, é sabido das mazelas desse país, sentiu na pele, por isso decidi falar com ele sobre o que me atormenta.
— João, tenho medo de não ser quem esperam que eu seja, talvez a mãe tenha errado ao escolher a mim, para tal profecia. Preocupado afirmo.
— Ibity, contarei a você um segredo, ninguém sabe qual seu motivo de estar vivo, porém você tem certeza do seu, não estou dizendo que isso é bom, no entanto também não sei se é ruim, porém você tem a chance de fazer o que lhe é destinado, como também pode escolher não fazer. Destino é algo que construímos. Diz João com sua voz serena.
— Eu quero ajudar a todos, porém não sei se sou capaz! Digo tristonho.
— Ouça meu conselho jovem, eu um velho rato já lutei contra os homens, não por ódio, nem por vingança, mas lutei para a eles mostrar que não somos diferentes, mesmo com tamanhos, cores e formas distintas todos temos o mesmo propósito, viver, e isso é um desafio, algo que fica ainda mais complexo quando não nos ajudamos. Então esqueça que é seu dever, mas faça se for sua vontade, porque capaz… capaz você é!
O silêncio tomou conta do meu ser, percebi que ainda há muito para mim viver, porém eu quero, dar uma vida digna a todos os seres, mesmo que isso custe parte de mim, farei com que os homens voltem a nos ver como iguais.
Capítulo 10 - Preparação
Passei alguns dias refletindo o que João havia falado, eu já decidi o que fazer, porém não sei como fazer, então passei a pensar nisso, pedi ajuda a Bram, ele deu-me dicas sobre como atacar os homens, no entanto não acho que seja dessa forma que eu vá mudá-los, apesar de minha raiva quanto a suas injustiças, eu não irei atacá-los, não porque tenho algum apreço pelos mesmos, mas sim, porque não quero igualar-me a eles! Então decidi fazer assim, pedi com que Guaraná me ensinasse a ler e escrever, Guaraná e Bram passaram um aperto, eu aprendo rápido, porém sou desatento, então ficamos alguns meses nisso, eu pedi por isso, pois quero entender os homens por completo, pedi para que Frangues me contasse tudo que sabia sobre eles e sobre como deixaram de nos entender, demorou um bocado, porém agora sei o que devo fazer! Meu corpo mudou muito nesse meio tempo, fiquei maior, minhas folhas caíram e avermelharam, porém agora já estão voltando a crescer, agora que tudo está pronto, decidimos deixar a toca e fomos rumo a maior cidade, disseram para mim que lá há animais e pessoas de todos os tipos, e o mais importante, lá é onde tem o mar! O grande lago sem fim que meus irmãos me falavam, disseram que chama-se mar, fomos andando, até que chegamos em um lugar inusitado, uma grande muralha com vãos em forma de arco, o lugar parece antigo, há muitos pombos, ratos e gatos no local, todos estavam conversando com um cão já velhinho, eles tinham em seu olhar admiração quase divina, curioso perguntei.
— Bram, conhece aquele cão?
— Com certeza Ibity, ele chama-se Heitor, bem esse não é o seu nome, porém todos os chamam assim, porque ele foi amigo de um humano que nos entendia, ele também é famoso entre os homens, Heitor Villa Lobos, ele faz música. Diz Bram contando contente.
— Música, o que é isso? Pergunto eu
— Música é o que os pássaros fazem sempre que cantam. Fala Guaraná me respondendo com atenção.
— Os homens também cantam? É tão bonito quanto os cantos dos meus irmãos, Sabiá-laranjeira, o Curió, o Azulão e o irmão Tiê-sangue? Não acredito, ninguém canta como eles!! Digo indignado.
— Na verdade, os homens são muito bons, eles sabem usar a voz e ainda criaram instrumentos para fazerem melodias complexas e transmitir sentimentos através delas. Bram explica e conclui — Eu já ouvi muitas das melodias dos homens, e todas me fazem chorar, lembro-me de um homem que cantava como um Corrupião!
— Eu também já tive a sorte de ouvir alguns homens cantarem! Diz Guaraná orgulhoso.
— Que incrível! Fico maravilhado!
Capítulo 11 - Os artistas da Lapa
A lua foi aparecendo, as luzes fortes como o sol se ligando, havia um show para começar, no alto dos arcos da Lapa descia uma silhueta belíssima, um homem, não, um bicho, também não, um ser como Ibity, indescritível, ele começa a cantar, sua voz sem gênero toma o lugar, tomou para si os arcos, o rio, Ibity, Guaraná e Bram ficam maravilhados, Bram diz.
— Simplesmente incrível, veremos o show dele?! Pulando de entusiasmo!
— De quem? Pergunta Guaraná.
Ibity com olhos brilhando, diz.
— Não sei, mas ele é como eu.
— Sim Ibity, ele é como você, é bicho, homem, mulher e lobisomem.
A figura canta com vontade, movendo seu corpo de tal modo, como quem sensualiza para sua amada, sua voz ecoa por todos os ouvidos que ali se encontra, os casais entusiasmados, as crianças maravilhadas com tal performance, até os idosos, aqueles mais conservadores, abriam um sorriso ao ouvir aquele rapaz, todos entram em um estado de transe com a música, a voz e a dança. Ibity nunca havia presenciado tal maneira de arte, tão complexa, tão… tão… tão bicho, animalesco e bonito. A apresentação dele chega ao fim, porém, lá do fundo, ouve-se a voz, divina, os arcos tremem, os prédios sacodem e a plateia vai à loucura, quando entra no palco, um homem retinto, de boina azul, cantando que eles não viram, seu lado ocidental, Ibity, nada entende, porém vê que não precisa mais temer, por que é como se ouvisse a voz de sua mãe, cantando para avisá-lo, sobre o veneno posto em cálice dourado, a plateia encontra-se novamente hipnotizada, não conseguem parar de olhar aquele homem, com um sorriso gentil, porém uma mensagem tão firme, Bram diz.
— Nunca achei que o veria! Ouvi sua música a muito tempo em um rádio velho na antiga toca.
Seus companheiros não o respondiam, porque seus olhos não se desprendiam do cantor, até que ele se despede, vai caminhando solene até sair da visão de todos, ao sair todos ouvem um passo apressado de um salto, a luz reflete um vestido vermelho vivo e brilhante, um cabelo cobre todo o palco com sua magnitude, mas não só ele, uma voz aguda, tão bela, que é como se Ibity ouvi-se a canção de Iara, essa voz entrou tão fundo em sua alma que pendurou-se em seus galhos, como um macaco persistente atrás de comida, era tão bonita a voz, que os casais começaram a dançar de uma forma tão bela, que os tres não conseguiam parar de presenciar aquela dança carregada de tanto afeto, a voz e o cabelo aos poucos vão-se embora, porém antes mesmo dos aplausos começarem, uma flauta com cheiro de flor começa a tocar, agora um idoso, toca carinhosamente seu instrumento, e sopra como o vento do mar, fazendo a melodia que aos homens os relembram suas casas e aos animais ali presentes, os lembram de quando ainda pequenos tomavam o leite de suas mães, já Ibity, apenas sentia como se o canto mais bonito dos pássaros ganhassem um concorrente mais do que digno de tal façanha, o tempo parece parar para o salvador, que agora acha propósito para salvar a humanidade de sua própria ruína. As luzes apagam-se quando a última nota termina de viajar pelo vento, e todos aplaudem, Guaraná e Ibity nem sabem o que significa tal ato, no entanto o fazem, fazem com o coração.
Guaraná nunca gostou dos homens, porém agora, os via de outra maneira, assim como Ibity, via esperança e redenção. Se perguntava — Como uma espécie assim não pode viver em paz?
Bram também maravilhado, havia visto todos aqueles poucos humanos que admira. Eles finalmente respiram, a quantidade de sensações que foram provocadas neles os deixaram sem ar.
Em silêncio, Bram os levou até uma grande praça com um belíssimo edifício antigo, com detalhes dourados e grandes colunas em sua fachada.
Capítulo 12 - O discurso
Estávamos em frente àquele grande edifício, eu, Guaraná e Bram, tomei a frente e chamei a atenção de todos que ali estavam e proclamei.
— Homens, eu sou Ibity, filho homem-bicho daquela que a todos criou, e que vocês negaram e entristeceram muito ao longo do tempo, com suas grandes máquinas que nada produzem a vocês, sua hipocrisia triste, que engana aos seus, a ganância que os leva a destruir tudo, para não construir nada, o individualismo tolo, que não os ajuda em nada, porém há uma forma de consertarmos tudo. A muito tempo, homens e animais vivam em harmonia, ajudavam uns aos outros para o bem de todos, porém agora, vocês nem ao menos respeitam seus irmãos, pior, nem a si mesmo, criaram nações, que roubam como se fosse de sua posse, costumes, que os dividiram vocês em grupos iguais, todos têm o mesmo objetivo, destruir o outro e ainda mais com essa divisão veio o ódio, ódio esse que propagam a mãe terra, a vocês e aos animais. Eu, não sou como vocês, nem como eles, por isso venho aqui dizer, que não dá para vivermos assim, é dever nosso, mudar isso, por isso.
Pego de minha cabeça, pequenas sementes e com um sopro suave as espalho e as nuvens vem carregá-las para todos os cantos aos poucos vão se dissipando no horizonte, porém uma caí, em meio a praça e dela sai um broto e com esse broto os digo.
— Tenho um pedido a vocês, homens e animais, vivam esqueçam as diferenças e cuidem dessa pequena semente, ela é o primeiro passo para o equilíbrio.
As sementes foram plantadas na mente das pessoas, todos que ali estavam olharam para o pequeno broto, ninguém se movia, até que uma pequena criança pega o broto que estava no chão e o leva a uma pequena fresta de terra em meio aos blocos no chão, uma senhora anda devagar até o broto e com sua garrafa d’água rega a planta.
Fim.
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