A artesã

 

A artesã 


A luz é coberta por uma silhueta feminina, ela se move de forma inquieta, o barulho de vários formões batendo entre si e arrastando na madeira, o aroma seco dos filetes tirados pela artesã caem no chão, a mulher trabalha atentamente em um corpo esbelto talhado em uma só parte de um tronco grosso e saudável, de algo que um dia já foi vivo, os movimentos delicados e concentrados da artesã dão a sala um ar seco, porém acolhedor, ela trabalha como quem faz o que ama. Ela talha os olhos do homem belo, e nele transmite tranquilidade, depois passa para a boca, fina, porém atraente, depois vai para o cabelo, faz fio a fio, esse processo demora dias, noites e noites acordada para completar o Deus, perfeito, de olhos penetrantes, olhar sensual, rosto de simetria perfeita e seu corpo, tão belo quando o corpo de um anjo, porém um detalhe destoa da delicadeza divina, seu pênis enorme, em volume e comprimento, chama a atenção de qualquer um. Após completar sua obra prima, a artesã faz um gesto, balança e toca deliberadamente o corpo nu, quando a madeira aos poucos passa a ganhar uma elasticidade e textura viva, seus olhos que antes eram vazios, porém profundos, ganham vida, ela o agarra forte, ele retribui o afeto, nisso os dois começam a se tocarem e a escultura começa a despir a artesã, com afeto sensual, ele entrelaçam-se de tal forma, e essa dança dura três dias e três noites, quando o ato chega ao fim, a estátua volta a sua pose de nascença e a mulher ajoelha-se e chora. Meses depois, sua barriga está grande e nela carrega um filho semi-incestuoso, de um amor impossível.


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